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Mostrando postagens de agosto, 2025

O Amor do Vazio

Há um instante na vida em que o sentido se dissolve. Na dúvida que se ergue, tentando acertar a direção, surge o apavoro. A angústia quer mover o coração, mas ele pulsa sem rumo. E, quando o caminho se perde, no brilho sombrio encontramos o amor do vazio. O vácuo entre o real e o imaginário é um corte, uma junção de temores que molda o espírito em Prometeu, prisioneiro de sua própria liberdade. O desejo de mudança parece chama eterna, mas é só lampejo — breve clarão antes da repetição das mesmas sombras. Nada no mundo escapa à corrupção dos devaneios, nem aos quereres disfarçados de misericórdia. E quando tocamos o fundo do poço, o destino se vira. Não é retorno — é travessia ao seu oposto. Basta ao homem um único suspiro, antes que, por um beijo, ele se perca no doce e irremediável devaneio.

Cântico da Vida Persistente

Mas o que seria eterno, senão a ilusão? Tudo é passageiro, neblina e chão. O início? Apenas um fim disfarçado, Com hora marcada, destino traçado. Pensamos ter o tempo em nossas mãos, Mas ele escapa como grãos vãos. A consciência revela — o fim não cessa, É um contínuo ciclo, que nunca adormece. O amor, semente em solo profundo, Persiste, molda-se ao giro do mundo. Mas as relações, frágeis como o vento, Nem sempre resistem ao esquecimento. Se o amor se curva ao tempo que gira, Pode o homem perder sua própria mira. E resta, então, a única certeza: A vida, em sua eterna natureza. Pois mesmo quando cessa o respirar, Ou as folhas se recusam a dançar, A vida segue, em forma ou em ausência, Persevera além da consciência. A vida é sopro que se eterniza, Movimento sutil que se imortaliza. É o que há no instante contido, Na eternidade de um gesto vivido.

Cântico da Queda das Formas

Tudo que existe, um dia se desfaz, Deixa a moldura, rui o que era paz. A forma antiga, outrora imponente, Transforma-se em sombra, silêncio latente. Eterna é a dança da transmutação, Onde até deuses perdem o trono e a mão. O que se ergue em glória, em glória desce, E o que domina, ao pó enfim regresse. O "eu" que brada ser mais que outro ser, Perde sua voz ao se desfazer. A máscara cai, a carne se curva, O tempo consome, a essência turva. O orgulho — chama breve do vazio — Arde, depois sucumbe ao próprio frio. O narcisismo, espelho de ilusão, Estilhaça ao toque da mutação. Potências vastas, reinos sem medida, Não escapam à queda já contida. Tudo que sobe, a Terra há de chamar, E ao ventre antigo há de retornar. Nada há de eterno, salvo o momento Em que se move o eterno movimento. Não o que é fixo, mas o que se esvai É que revela o que de fato vai.