ONDE ESTÁ A MENTIRA?

O que considerar como sendo verdadeiro ou falso? Para poder realizar uma análise desta questão é fundamental retornar aos primórdios da ação humana, ou seja, nas primeiras escolhas. Estas que já são produtos de uma bagagem já implícita na natureza humana, pois, quem escolhe onde nascer, ou a família a compor? Simplesmente os indivíduos vêm ao ‘mundo’ desnudos sem entender nada, sendo de tal maneira abraçados e absorvidos pela cultura, em seus costumes e crenças. Tornam-se frutos da moral constituinte. As pessoas não escolhem o lugar onde vão nascer, a religião familiar ou os padrões sociais que o formaram durante a infância, neste acaso, se constroem a primeira base do conhecimento do bem e do mal, do certo e do errado. Assim, o contexto cultural é uma união de pensamentos individuais que são aceitos pela maioria tornando-se leis de conduta daquele grupo, isto é, toda pessoa que vive naquela realidade está submetida há esse padrão, sendo ele sua verdade.  

Como afirmar então uma certeza já que somos condicionados a uma moral prévia que guia nossas noções de verdade e mentira? Um europeu na Idade Média, provavelmente era cristão, sua verdade era revelada por uma ideia de Deus, que está no céu e que no inferno está o demônio; uma doença era tida como um castigo divino ou influência maligna. A concepção da verdade para ele era piedosamente tomada como certa, a doença como uma cruz para santificação, porém, na atualidade é incabível tal compreensão. Este exemplo manifesta como uma noção de realidade é fruto de um contexto sócio-histórico-cultural que forma o imaginário popular. 

Desta forma, as verdades são produtos do pensamento: este é fruto de uma compreensão da consciência da representação que é dada pelos sentidos e racionalizada, formulando dessa maneira um conceito entre os objetos e o sujeito. A coisa é a imagem conceitualizada pelo indivíduo em sua consciência, isto é, a coisa presente no tempo e no espaço, tendo dimensões que são determinadas por sua forma, não sendo possível considerar como mentiras, à qual abre-se à noção de verdades imanente; da forma; da dimensão; do peso, isto é, de leis matemáticas que se aplicam quantitativas a essa realidade, formulando verdades qualitativas. A questão em pauta se qualifica a partir de uma verdade matemática, já posta pela razão em uma estrutura lógica, esta por sinal utiliza-se de uma linguagem, sendo assim de palavras, que por sua vez são uma convenção, dada em padrões gramaticais dentro de um círculo ‘gravitacional’. Ocorre que ao chegar a profunda clareza da verdade o homem esbara-se com os limites da sua própria razão expressa em jogos de linguagem: é como o homem que diz que isso é bom ou ruim, são discursos produzidos desde a infância, solidificados na fase adulta, mas que são verdades aceitas com convenção 

A mentira é uma verdade para o mentiroso? Ou é uma verdade diferente da apresentada por quem o considera charlatão? Algumas teorias dissertam sobre a temática da mentira, formulando argumentos e questões para apoiar o ato de mentir ou abominá-lo, construindo assim, correntes como o Absolutista, que tem seus representantes em “Santo Agostinho, Montaigne e Kant, uma vez que sustentam a tese de que a mentira é sempre abominável, raramente possuindo aspectos positivos; sobretudo, porque mentir violaria o dever de ser sincero consigo mesmo. Para esses filósofos a mentira é deletéria à coesão de qualquer sociedade humana”1. E os Utilitarista, que afirmam já “de outro lado, levando em consideração a utilidade social da mentira em determinadas ocasiões, insistem que há situações que permitem o uso da mentira ou, simplesmente, reconhecem a necessidade da verdade, entretanto, não em sua totalidade, pois, é impossível dizê-la”2. 

De fato, mentir é justo? Ou dizer a verdade sempre é o mais certo? “O desafio fundamental da história humana é, sem dúvida, a verdade; ou seja, o que seria a verdade?”3 No percorrer dos séculos acreditou-se ter uma verdade revelada, uma máxima matemática, que conduziam as pessoas em caminhos certos, mas que com a virada linguística, mostra que a verdade e a mentira, tornam-se um produto do discurso que cria e fundamenta as certezas seguidas e aceitas. A liquides das verdades é a mesma fluidez das mentiras, não se pode considerar dogmaticamente uma oratória de púlpito como a certeza última da vida humana, é simplesmente, mais um dos produtos do mercado, para paliativamente consolar o homem ante sua finitude existencial.  

A força do discurso impede, por vezes, a avaliação da realidade de uma certeza sobre o mentir ser bom ou ruim, certo ou errado, é antes uma moral, que fundamenta equivocadamente padrões de ação, diante da morte. Por que não se apegar na certeza da ressureição ou da reencarnação? Por que criticar? A mentira torna-se intocável. Quem tem a coragem de duvidar ou negar aquilo que são princípios de sua família? Toda verdade qualitativa é um julgamento feito por um indivíduo e aceito, por vezes, como lei por um grupo, que o forma como moralidade, de maneira que ir contrariamente a este, seria uma heresia passível de morte. Assim, mentir é acreditar, aceitar e conservar a sua vida.  

O intuito não é relativizar a existência de uma verdade última e irrefutável, mas manifestar que esta é, por vezes, uma concepção moral, que conceitua todo o conhecimento e a ação, dando formas pré-dispostas a conduta, de maneira, que se desconhece a liquides de uma verdade, que pode ser diferentemente da temporalidade ou da espacialidade é uma mentira. Sendo assim, a mentira de uns e a verdade última de outros.    

“Por que a verdade é de fato tão importante para nós, ou por que devemos nos importar com ela?”4 O norte de uma população é pautado por pensamentos em comum que em uma sociedade encontra-se sua expressão nas normas e leis que regem a conduta, isto é, a moralidade dos bons costumes, a ponto de que nada se isola dos limites destes fundamentos, sendo suas verdades que levam a guerra ou a paz. “Analisar as condições sociais e mentais da transformação do verdadeiro e as maneiras de elaborar distinções entre o discurso verdadeiro e o que não o é, será sempre um esforço apolíneo”5. Com a morte de Deus proclamada por Nietzche, deixa-se uma verdade revelada, passa-se a uma constituição das verdades por meio do argumento, todo esforço torna-se raciocínio lógico para convencer o outro da ‘minha ideia’, uma ideologia das palavras, que compreendem as verdades não relativas, mas, provisórias.6 

Mentir não pode ser considerado certo ou errado, ou seja, “os homens que se atrelam a um discurso e a um Dispositivo são livres somente pela metade”7, pois, ficam limitados ao horizonte de seus olhos, não percebendo a força empregada da moralidade sobre sua tomada de consciência. Assim, “os discursos suplantam-se uns aos outros. A verdade é que não há verdade. Cada jogo de linguagem tem sua própria verdade”8. Um exemplo desses jogos de linguagem, é o recorte ideológico de um Cristão, pois, para ele, Deus direciona sua conduta por meio das leis dadas aos profetas, que as eternizaram nas Escrituras. Transforma assim em um norte normativo, que se fundamenta na própria fé nessa revelação. Supondo que se retire a noção de Deus Trinitário deste homem, logo sua verdade que se impõe torna-se estéril em sua amplitude se não mais consagra-se no espaço do debate9. 

Conclui-se que diante da situação do mentir é inconsistente afirmar uma validade no ato, já que não há uma verdade que se fundamente como universal e eterna no hábito ético, pois consiste em leis constitucionais. A verdade é um discurso assumido por aquele grupo de modo que na ocasião de contrariedade de sua máxima é sempre mais justo o “sábio que mente por bondade, é, pois, mais profundamente verdadeiro que um sofista que disse a verdade por maldade”10. Pelo fato de que, “não é a verdade que importa, mas a maneira de dizer e seus efeitos. Não é o que você diz que importa, mas o que você faz com o que você diz”11.  As verdades são grandes mentiras aceitas por um grupo, inquestionáveis em sua raiz, de maneira, que regem com veemência suas decisões. Aquilo que é aceito é verdadeiro, mentir é contradizer o proposto, ou seja, ser louco, pois, o louco não é considerado em um discurso por ser louco, não por ter um discurso sem argumentos sólidos. Assim, “o homem se acomoda diante das ilusões e as crê verdadeiras. São as metáforas produzidas pelo senso comum que levam o status de verdade. [...] a verdade cristalizada pelos conceitos se converte em poder. A crença de termos descoberto a verdade ” 

 

“Não há homem que recite e espalhe uma mentira  

com tanta graça como aquele que acredita nela”. 

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