A HISTÓRIA DA LOUCURA

 

A história da sociedade é pautada por uma construção processual no tempo, em que de geração em geração o homem foi se desenvolvendo nos costumes e hábitos, que produziram, por conseguinte, as formas de relação, pois, para que haja uma vivência em comunidade é necessária a morte de inúmeras vontades. Porém, no exercício de civilização, ocorre a estigmatização dos padrões, dando uma imagem de perfeição, um arquétipo, que acarretará na normatização do aceito e do que deve ser renegado. Diante disso, o princípio de que o discurso é uma construção realizada pelo indivíduo em seu contexto social, compõem-se de tal maneira que o saber e o poder estão tão intrinsecamente relacionados que os termos estão interligados como um saber/poder. 

O que considerar então como sendo loucura ou até mesmo como sendo uma pessoa louca? as pessoas são formadas por uma moralidade que as conduzem dentro de padrões previamente dispostos, estas quais caracterizam e estigmatizam o indivíduo naquela realidade social. Não é capaz do homem de formar aquilo que acredita ou aquilo que não acredita diante de um contexto que o impõe e o impede de pensar para além daquilo que acredita, pois, se ele quiser fazer uso de seu próprio raciocínio e de sua subjetividade pode ser de certa maneira considerado como um demente. Louco não é alguém que não acredita ou não tem argumentos que possam ser considerados sólidos, mais sim, palavras que são consideradas como irrelevantemente por aqueles que se consideram donos de toda a moral. 

A crítica está nesta materialização do discurso que produz no homem uma forma de pensar e ver a realidade conduzindo a toda pessoa uma forma predisposta que o estigmatiza dentro de uma sociedade e o crucifica dentro dessa realidade, e pensar fora da caixa é não estar na caixa é ser considerado um desvairado. Como relatam na história de Foucault que “viam-no como um louco perigoso, qualidades que só faziam ser exacerbadas com seu inquestionável brilhantíssimo”. Ao tratar dessa questão da personalidade de Foucault mostra-se claramente que gostos excêntricos não querem dizer que essa pessoa não tem em si um brilhantismo, ou seja, uma noção que se diferencia das demais, mas mostram um intelectualismo além da normalidade, uma maneira de pensar que não se equivale a usual.  

O conceito de normalidade pode ser colocado em questão se esse for visualizado como uma noção que se compete à uma ideologia de um sistema social, um exemplo dessas questões que envolvem as noções de normalidade, esta contido na percepção da própria sexualidade em sua forma heterossexual e homossexual. O homossexualismo foi considerado em anos da história como sendo um crime gravíssimo, como no caso de pessoas que tiveram que tomar remédios para a castração biológica de seus impulsos, isto levando a muitos deles a loucura patológica e ao suicídio, isto mostra que certas noções ao perpetuar dos anos podem sofrer mudança passando de aceitável a desprezo, como então constituir uma noção que estigmatize a pessoa se essa mesma pode ser deixada de ser construída ao passar dos anos? 

Com as realidades dos arquétipos, monta-se uma compreensão do mundo e das pessoas, de tal maneira, que “o passado estava vivo no presente, e o modo como compreenderíamos o passado demonstrava como poderíamos compreender o presente. A história não estava registrando a verdade do passado, mas revelando a verdade do presente”. Assim sendo, uma relatividade que enquanto é usual no tempo e no espaço histórico, é formadora do imaginaria popular, gerenciando sentimento de culpa e de revolta por meio dos que sofrem as influências dessas considerações. As imagens que simbolizam o perfeccionismo do homem da razão e da família de ‘margarina’ são simplesmente frutos do imaginário coletivo que estigmatiza os padrões., pois, “essa existência nós mesmos a havíamos criado pela maneira como existíamos, fazíamos as nossas escolhas e agíamos no mundo. Até a própria humanidade não passava de uma estrutura social, criada pelas forças culturais em constante transformação”. 

A loucura esta atrelada a figura de um indivíduo que “à medida que a loucura foi definida (e confinada), também o foi o comportamento sensato. A especulação racional sobre a sociedade produziu noções tais como a crença no valor moral do trabalho e as obrigações morais, que foram incorporadas às leis civis”, principalmente ligada a uma postura que “na verdade, [mostra-se como] uma questão de percepção e prática social”. Chega ao “ponto [que] a loucura havia sido primeiramente confinada e, portanto, isolada da razão, de modo a se transformar em des-razão? Nos tempos medievais, os loucos vagavam livres pela sociedade. Eram considerados sagrados”. Com o decorrer dos anos a história mostra que pensamentos compreensões e contextos são basicamente diferenciados e os fatos ao pendurar dos anos ganham novos olhares, como é o caso de Dom Quixote, ao lutar com os gigantes, que na verdade não passavam de grandes moinhos de vento, este personagem da literatura, transmite valores, crenças por trás de seus delírios. Basicamente, “o sábio louco era um reflexo irônico da loucura da sociedade. Os loucos de Shakespeare falavam a verdade de forma oblíqua. A loucura de Dom Quixote refletia a loucura da humanidade”. 

A constituição desta maneira de observar mostra que “a loucura havia se tornado des-razão e passou a ser fisicamente isolada do território da razão. Juntamente com a loucura, outras formas de comportamento ‘insensato’ também eram isoladas da sociedade ‘sensata”, isto é, como no caso dos leprosos na idade média, que no medo do contágio da lepra, eram isolados do convívio social, sendo submetidos a miséria e ao desprezo dos afortunados do sistema feudal. Contudo, não se pode dizer que todo louco é fruto de transtornos psicológicos, mais antes que, a história manifesta as loucuras dos normais, a cultura formada que molda os modos do homem pesar.  

O indivíduo é a figura da cultura que a rodea, o produto dos arquétipos que o estigmatizam em padrões moralizantes, chegando ao extremo de desprezar a subjetividade e as particularidades que formam a diversidade cultural mundial. Assim louco é todo aquele que esta contra a realidade vigente, de modo que loucura é sinônimo de diferente, alheio a sociedade. A pessoa louca é o que não esta nos padrões sociais de uma cultura. Torna-se um bicho de sete cabeças, todo aquele que denuncia, a loucura da normalidade. Assim no exemplo do filme "Bicho de 7 cabeças" em que traz o cenário dessa loucura: Na cena em que Neto esta saindo para viajar com os amigos, entra em meio a uma discussão, com o pai,  este percebe que o filho usa brinco. E em tom exaltado o pai, fala isso é coisa de 'viado’, Neto sai sem dar explicações. Tal ato manifesta a loucura de uma sociedade machista e preconceituosa, que considera o uso de brincos com teor de "bicho de sete cabeças", manifesta a cultura xenofóbica que o ser homossexual é um louco. Assim, um brinco é sinônimo de homossexual, um transtornado mental. Não tem pé, não tem cabeça, que todo louco seja maluco da cabeça, ou seja um poeta abandonado.  

No decorrer do filme mostra-se a loucura de uma família em que a mulher é submissa ao marido.  Com olhar abatido a mãe de Neto, vive a sua existência. A fumar cigarros e andar esperando que a morte a carregue. "Não tem jeito, não tem ninguém que mereça", que "um desgosto pode levar à loucura e o abandono de um grande amor" a tristeza. A tristeza era tida como loucura e desgosto de uma família. De maneira que inúmeros homens e mulheres, foram esquecidos em manicômios. Onde foram tratados como doentes, de uma doença que não possuíam. Assim, todo o filme é um retrato da desumanização, do próprio homem. Neto não era louco, mas, fruto da loucura de seu meio. Internado como dependente químico, sucumbe a normalidade do contexto. Por fim, não tem pé, nem cabeça, que o homem louco seja maluco da cabeça, ou mais um esquecido no senado. 

Viver em uma sociedade é estar submerso em um emaranhado de pessoas. Porém, nem todas tem dignidade humana. Como considerar então uma pessoa louca ou normal? Já que existem loucos normais e normais loucos. O meio social forja uma ideal de ser perfeito, normal é quem se encaixa neste contexto e louco é todo individuo que não se encaixa. O mundo é formado por loucos normais. Os loucos constroem foguetes, para ir a lua. Os normais seguem a normalidade da vida. Normais se preocupam com o bem individual, os loucos descobrem vacinas. Enquanto alguns seguem a monotonia da vida, padronizados desde o vestir ao comportar-se. Loucos atrevem-se a chorar e dizem que tem medos. Seres perfeitos não possuem e erros. A loucura e a normalidade são frutos de uma sociedade e seus padrões. O estado cria loucos, para esconder a própria loucura. Ao figurar uma ideia de loucura, constitui-se o arquétipo de crianças loucas, que se trata na verdade de indivíduos que necessitam de apoio, e que por vezes são destituídas de dignidade. São crianças manchadas pelo pecado dos normais, frutos da negligência de seres perfeitos, compreende-se de tal mdo que “ao mostrar como o conceito de loucura mudou e alterou seus limites ao longo do tempo, [procura-se] libertar o presente de sua própria visão limitada.” 

A loucura torna-se um produto do discurso que o fomenta considerando aquilo que seja a não-razão a postura de um doido, insensato que deve ser retirado do convívio social, ou ser questionado a voltar ao padrão. Os pensamentos são a fonte da loucura e da sanidade, isto é, não há loucos, então o que os produz? Seria uma singularidade em ruinas? Ou como diz “tambien em el Fedro disse el mismo Platón que sin um grano de loucura no puede haber um verdadero poeta, y que quien ve em las cosas parecederas las ideias eternas parece loco. 

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